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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAPACIDADE ESTATAL, EL NIÑO 2026 E O VALE DO TAQUARI: ENTRE A MEMÓRIA DO DESASTRE E A URGÊNCIA DA PREVENÇÃO


 

Rafael Luft ¹

As inundações que devastaram o Vale do Taquari em setembro e novembro de 2023, e novamente em maio de 2024, não configuram episódios isolados, mas expressam a materialização de vulnerabilidades estruturais acumuladas por décadas. O Ministério Público Federal, em ação civil pública ajuizada em junho de 2024, narrou que nos últimos cinco anos ocorreram as quatro maiores enchentes dos últimos cinquenta anos nos municípios de Estrela e Lajeado, sendo que três das cinco maiores enchentes já registradas eclodiram nos derradeiros doze meses, em um período histórico de mais de 150 anos de registros. A Confederação Nacional dos Municípios (CNM), com base em dados da Defesa Civil, aponta que mais de 104 mil moradias foram danificadas e outras 9,3 mil destruídas em 478 dos 497 municípios gaúchos somente na enchente de maio de 2024. Visto que o Rio Grande do Sul enfrenta agora a perspectiva concreta de um novo evento climático extremo, a análise da capacidade estatal de resposta e das transformações institucionais em curso no Vale do Taquari torna-se imperativa.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) acompanha de perto as atualizações dos principais centros internacionais de meteorologia sobre a possível confirmação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, período em que o fenômeno deverá influenciar principalmente o final do inverno e a primavera no Brasil. De acordo com o Centro de Previsão Climática da NOAA, a probabilidade de formação do El Niño supera os 60% já no trimestre maio-junho-julho, escalando para impressionantes 90% a partir de agosto de 2026. Os modelos climáticos indicam que existe praticamente a mesma chance de o fenômeno atingir níveis moderados, fortes ou até muito fortes entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, sendo o cenário mais provável, em concordância com a Climatempo, o de um El Niño de forte intensidade. Paralelamente, o meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, explica que o fenômeno favorece o aumento no transporte de umidade e de calor da região amazônica para o Sul do País, resultando em chuvas mais intensas, irregulares e persistentes, com todas as regiões devendo registrar precipitação acima da média histórica.

Ademais, em resposta às tragédias de 2023 e 2024, observa-se uma transformação institucional relevante, ainda que incompleta, na governança climática na região do Vale do Taquari. Dois anos após a enchente mais devastadora do Rio Grande do Sul, sete cidades da região (Arroio do Meio, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum e Roca Sales) estão próximas de concluir novos planos diretores que incorporam os riscos do Rio Taquari e das encostas íngremes, projetando onde e como cada município poderá crescer em um horizonte de vinte anos. Outrossim, o Estado formalizou novas políticas de proteção climática com foco na Serra Gaúcha e no Vale do Taquari, incluindo a instalação de pluviômetros automáticos em pontos estratégicos e a integração desses dados com o sistema ClimaRS, que permite à defesa civil municipal emitir ordens de evacuação de forma setorial. Contudo, como observa Quarantelli (1998, p. 261), "os desastres não são naturais; eles revelam as estruturas sociais de vulnerabilidade preexistentes", e essas estruturas permanecem parcialmente intactas."

Em segunda análise, os avanços institucionais coexistem com lacunas graves que fragilizam a capacidade de resposta diante do El Niño anunciado. Mais de dois anos após a primeira grande enchente, milhares de famílias do Vale do Taquari seguem à espera de reconhecimento oficial e de políticas públicas efetivas de reconstrução, com apenas cerca de 30% dos atingidos mobilizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens constando nas listas oficiais das prefeituras. Pesquisadores apontam que os municípios falharam quando da revisão e elaboração de seus planos diretores no início dos anos 2000, haja vista que as enchentes já eram uma constante na região, e que parte do problema reside na limitação de servidores para atuar na fiscalização e regularização ambiental. Entretanto, o lançamento da Autoridade das Águas e o projeto de requalificação urbanística do Vale, anunciados pelo governador Eduardo Leite em março de 2026, representam um sinal positivo: o objetivo é garantir que zonas de alta probabilidade de arraste não sejam reocupadas, por meio de compensação financeira e desocupação, e captar recursos para nova destinação de uso do solo.

Em síntese, o Vale do Taquari emerge como o epicentro de uma tensão estrutural que define o futuro da proteção civil gaúcha: a velocidade da reconstrução institucional é insuficiente diante da aceleração dos riscos climáticos. Portanto, com o El Niño de forte intensidade provavelmente se consolidando a partir de agosto de 2026, o Rio Grande do Sul enfrenta uma janela crítica de ação preventiva. Dessa forma, a prioridade imediata deve ser a conclusão e homologação dos planos diretores dos municípios do Vale do Taquari, a universalização dos sistemas de alerta precoce integrados ao ClimaRS e a regularização cadastral dos atingidos ainda invisíveis às políticas públicas. Como defende Valencio (2014, p. 18), "a reconstrução pós-desastre tende a reproduzir as vulnerabilidades anteriores quando não acompanhada de transformações estruturais na governança do risco", e o tempo para romper esse ciclo é, precisamente, agora.

Referências

BRASIL. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil. Brasília: DOU, 2012.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS MUNICÍPIOS. Levantamento de danos: enchentes RS maio de 2024. Brasília: CNM, 2024.

INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA. El Niño em 2026: nota técnica. Brasília: INMET, 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br.

NOAA/CPC. Discussão diagnóstica do ENSO . Washington: Centro de Previsão Climática, maio de 2026.

QUARANTELLI, Enrico L. O que é um desastre? Perspectivas sobre a questão . Londres: Routledge, 1998.

RIO GRANDE DO SUL. Plano Rio Grande: revisão dos planos diretores do Vale do Taquari. Porto Alegre: SERG/SEDUR, 2026. Disponível em: https://planoriogrande.rs.gov.br.

UNIVATES. Zoneamento de risco e mapeamento geotécnico: municípios do Vale do Taquari. Lajeado: Universidade do Vale do Taquari, 2025.

VALENCIO, Norma. Sociologia dos desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: RiMa Editora, 2014.


¹ Doutorando em Sociologia – UFRGS; Mestre em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento/UFRGS; contato: rafael.luft@gmail.com